O Impacto das Redes Sociais nos Atletas: O Crescimento do Discurso de Ódio no Desporto

As redes sociais nos atletas assumem hoje uma dimensão incontornável no contexto desportivo. Se, por um lado, permitem uma maior proximidade entre atletas, adeptos, clubes e instituições, por outro, têm também contribuído para uma exposição crescente a comentários ofensivos, discriminatórios e, em muitos casos, profundamente lesivos da dignidade pessoal.
Um estudo realizado durante o Mundial de Budapeste, em 2023, pela World Athletics, organismo que tutela o atletismo mundial, revelou que as ofensas sexistas e racistas dirigidas a atletas nas redes sociais aumentaram cerca de 500% relativamente ao Mundial de Oregon, em 2022. O principal alvo foram atletas negros, o que evidencia um panorama particularmente preocupante no combate ao racismo, ao sexismo e ao discurso de ódio no desporto.
Em 2024, foi elaborado um novo estudo relativo ao Mundial em Paris, que demonstrou que o tipo de abuso mais praticado continuava a ser de natureza racista e sexista, mantendo-se os atletas dos Estados Unidos da América entre os mais afetados. Estes dados mostram que o problema não é pontual, nem limitado a uma competição específica, mas antes uma realidade persistente no desporto contemporâneo.

Redes sociais nos atletas e liberdade de expressão
A crescente utilização das redes sociais tem promovido uma maior liberdade de expressão, permitindo que qualquer pessoa manifeste opiniões, críticas e comentários em tempo real. No entanto, esta liberdade tem vindo também a revelar uma preocupante insensibilidade quanto ao impacto das palavras publicadas nestes espaços.
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As pessoas parecem cada vez menos inibidas em dar voz aos seus pensamentos nas redes sociais, independentemente de os seus comentários poderem afetar quem os lê ou a quem são dirigidos.
Esta realidade afeta de forma particular figuras públicas e pessoas expostas mediaticamente, como os atletas profissionais. A visibilidade pública torna-os mais vulneráveis ao ódio nas redes sociais, a insultos, a ataques pessoais e a formas de abuso que ultrapassam largamente a crítica legítima.
No contexto desportivo, esta exposição ganha especial relevância. O atleta não é apenas avaliado pelo seu desempenho em competição, mas também pela sua imagem, pelas suas escolhas, pelas suas declarações e até pela sua vida pessoal.
O impacto das palavras no espaço digital
O ambiente digital criou uma falsa sensação de distância entre quem escreve e quem recebe a mensagem. Contudo, os efeitos das palavras continuam a ser reais.
Comentários racistas, sexistas, insultuosos ou ameaçadores podem afetar a saúde mental dos atletas, a sua confiança, o seu bem-estar e até o seu rendimento em competição. O espaço digital, apesar de virtual, produz consequências concretas na vida de quem é alvo deste tipo de comportamentos.
O discurso de ódio no desporto
O discurso de ódio no desporto é hoje um problema cada vez mais acentuado pela evolução constante da internet, das redes sociais e das novas plataformas digitais.
Racismo, sexismo e discriminação
Os dados recolhidos pela World Athletics revelam que os abusos mais frequentes continuam a estar relacionados com comentários de natureza racista e sexista.
Esta realidade demonstra que, apesar da evolução do desporto enquanto espaço de inclusão, igualdade e superação, continuam a existir comportamentos discriminatórios que atingem diretamente atletas em função da sua raça, género, nacionalidade ou exposição mediática.
A repetição destes comportamentos nas redes sociais exige uma resposta mais firme das plataformas digitais, das entidades desportivas e da sociedade em geral.
A exposição dos atletas à crítica pública
A crítica faz parte do desporto. Os atletas, treinadores, clubes e demais agentes desportivos estão sujeitos ao escrutínio público, sobretudo quando competem ao mais alto nível.
No entanto, existe uma diferença clara entre crítica e abuso. A crítica pode ser dura, mas deve manter-se dentro dos limites do respeito. O abuso, pelo contrário, procura humilhar, atacar, discriminar ou diminuir a pessoa visada.
É precisamente nesta fronteira que se torna essencial discutir o impacto das redes sociais nos atletas e a necessidade de proteger a dignidade dos agentes desportivos.
A resposta da World Athletics
Como forma de enfrentar este problema, a World Athletics tem vindo a investir em medidas de proteção em benefício dos atletas, nomeadamente através do uso de inteligência artificial para manter os seus feeds livres de ódio.
Inteligência artificial e proteção dos atletas
A utilização de ferramentas tecnológicas permite identificar, monitorizar e filtrar conteúdos abusivos, contribuindo para a criação de um ambiente digital mais seguro.
A própria World Athletics reconheceu que o abuso nas redes sociais pode ter um impacto devastador na saúde mental dos atletas e na sua performance. Por isso, tem procurado desenvolver soluções que permitam aos atletas manter contacto com os seus fãs, mas num ambiente mais protegido.
Esta resposta mostra que o combate ao abuso online não pode depender apenas da resistência individual dos atletas. Deve existir uma responsabilidade institucional na criação de mecanismos de prevenção e proteção.
Um ambiente digital mais seguro
As redes sociais são importantes para muitos atletas porque permitem comunicar com adeptos, patrocinadores e comunidades de apoio. Contudo, essa ligação não deve acontecer à custa da sua saúde mental.
A proteção dos atletas no espaço digital deve ser encarada como uma prioridade, sobretudo num contexto em que a sua imagem pública é parte integrante da carreira desportiva.
A responsabilidade das plataformas digitais
A realização de estudos que analisam e evidenciam o panorama alarmante do discurso de ódio nas redes sociais é essencial para consciencializar a sociedade sobre a gravidade deste problema.
Prevenir comentários racistas e sexistas
Estas iniciativas ajudam a promover uma discussão informada e incentivam a criação de soluções eficazes para mitigar a negatividade nos espaços digitais.
No entanto, é imprescindível que as próprias plataformas desempenhem um papel ativo no combate ao abuso online. A implementação de medidas rigorosas para prevenir comentários racistas, sexistas e outras formas de discriminação por parte dos utilizadores é fundamental para garantir um ambiente virtual mais seguro e inclusivo.
O papel das entidades desportivas
As entidades desportivas também devem assumir um papel relevante nesta matéria, promovendo políticas de prevenção, mecanismos de denúncia e ações de sensibilização.
O desporto tem uma dimensão social muito significativa e deve continuar a afirmar-se como espaço de respeito, inclusão e igualdade. Para isso, o combate ao discurso de ódio não pode ser apenas reativo, devendo passar também por estratégias preventivas e educativas.
Um desafio para o Direito do Desporto
O crescimento do discurso de ódio nas redes sociais levanta também desafios importantes para o Direito do Desporto.
A proteção dos atletas, a responsabilidade das plataformas, a atuação das federações e a definição de limites entre crítica legítima e comportamento abusivo são temas que exigem reflexão jurídica.
O desporto moderno não se joga apenas dentro do campo ou da pista. Também se joga no espaço digital, onde a reputação, a saúde mental e a dignidade dos atletas devem ser protegidas.
Leia o artigo completo na Newsflash de abril, disponível no site da BQ Advogadas. Para mais informações sobre o estudo do IPPS-Iscte, consulte a página oficial do instituto.

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